Ressaca é pelo que estou a passar.
Sem Vespa e desesperadamente dependente dos fluxos de tráfego automóvel, sinto uma imensa saudade da minha Vespa Cosa que alguns tiveram a ousadia de lhe chamar a pior Vespa jamais fabricada. É certo que não tinha aquelas formas redondinha das mais clássicas, mas era fantástica, andava pela cidade como que fazendo parte dela e com uma leveza que nos deixava completamente relaxados.
A minha nova Vespa; uma 150 Sprint teima em não chegar, a oficina teima em não a acabar de montar e as saudades de me sentir de novo nas duas rodas... essa cresce de dia para dia. Agora com a pimavera aí, e os passarinhos a cantar, o que é que é melhor do que sentir o vento na cara e no peito e aquele fantástico barulho do motor a trabalhar.
Viva o vespismo e o culto da Vespa
Por vezes damos conosco perdidos nos nossos pensamentos e no nosso mundo.
Daí que hoje estava ao volante, ao som da Antena2 e a certo momento lá estava eu a deslizar pela estrada ao som de vários "opus" em que imperava o virtuosismo do cravo onde a mão esquerda tocava os tons graves a direita ia ditando a melodia encantadora, capaz de nos arrastar para um mundo místico e imaginário de cores doces e absorventes.
Assim continuei por minutos a fio, enquanto os metros passavam e a estrada ia ficando para trás.
Findo este momento mágico, lá chego ao meu destino. E de repente dou comigo a subir uma escada minima, com um bombeiro à minha frente a fazer um estrondo enorme com as sua botas a cada degrau que pisava.
Assim disse para mim"acorda para a realidade pá"
É esta pequena distância que diferencia o som do ruído.
Hoje é dia mundial da Água
Vamos tentar não meter água, durante todo o dia de hoje.
É este o nosso contributo para a poupança deste recurso natural.

"Primo la música"
Para quem pela 1ª vez em Roma, naquele 1952, tudo era "diferente" e "mais". Mas uma coisa era mais e diferente: a "Vespa". Pares enlaçados em vertiginosas valsas com lindíssimas coreografias, nos entardeceres da Cidade Eterna, deixavam os campónios espetados na calçada!
O que se descobriu em primeiro lugar foi um novo modo de conviver em andamento, uma dança, um acasalamento feliz. Depois, prosaicamente, racionalizou-se que ali estava um novo meio de transporte unissexo e ladino que naquele pós-guerra vinha democratizar o modo de viajar...
..."Doppo la Parola"
Muitos anos depois, frente ao agressivo "peidociclo" urbano (agora nipónico) e à expansão do rural "cavalo de arame", posso referir a "Vespa" como o meu objecto de "design" do século e também um pouco a "Lambretta", sua irmã colaça.
Ambas propõem uma posição sentada pacífica e unissexo, mas só a "Vespa" nos dá um "habitáculo" definido claramente pelo seu subido avental, criando um espaço vivencial. Também ela, com uma imagem global unitária (zumbido, forma de insecto e denominação), é que melhor se afirma...
A "Vespa" é uma verdade estrutural porque adopta inesperadamente uma "estrutura laminar" de elementos em chapa estampada, tornados solidários por soldaduras num só conjunto rígido: estrutura/carrosseria resultante da experiência industrial da Piaggio no campo da aeronáutica.
O modelo 98, de 1945, desenhado por Corradino d´Ascanio, fixa definitivamente uma imagem de produto com uma lógica formal que, como ideia em movimento, vem até ao modelo mais recente, acentuando-se agora linguisticamente pelas "antenas" dos retrovisores.
A "Vespa" não é a botifarra da afirmação de personalidades agressivas. Só o tremendo aumento de tráfego exige o capacete lunar, perdendo-se os cabelos ao vento, as pernas cruzadas à amazona das "penduras" e aquele pestanejar cintilante das minhas encantadas memórias romanas!
Não é para cavalgadas apocalípticas e, como "indumentária", uma cordial pantufa!"
* Daciano Costa é o decano do design português. (falecido em 2004)
Texto publicado na Revista nº 1173 do jornal "Expresso", em 22.4.95
Texto retirado daqui: http://sepiaevasao.no.sapo.pt/sepiaeva_scooters.html
Meus olhos resgataram o que está preso na página:
O branco do branco e o preto do preto