Sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo,
Espécie de acessório ou sobressalente próprio,
Arredores irregulares da minha emoção sincera,
Sou eu aqui em mim, sou eu.
Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou.
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma.
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco inconseqüente,
Como de um sonho formado sobre realidades mistas,
De me ter deixado, a mim, num banco de carro elétrico,
Para ser encontrado pelo acaso de quem se lhe ir sentar em cima.
E, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco longínqua,
Como de um sonho que se quer lembrar na penumbra a que se acorda,
De haver melhor em mim do que eu.
Sim, ao mesmo tempo, a impressão, um pouco dolorosa,
Como de um acordar sem sonhos para um dia de muitos credores,
De haver falhado tudo como tropeçar no capacho,
De haver embrulhado tudo como a mala sem as escovas,
De haver substituído qualquer coisa a mim algures na vida.
Baste! É a impressão um tanto ou quanto metafísica,
Como o sol pela última vez sobre a janela da casa a abandonar,
De que mais vale ser criança que querer compreender o mundo —
A impressão de pão com manteiga e brinquedos
De um grande sossego sem Jardins de Prosérpina,
De uma boa-vontade para com a vida encostada de testa à janela,
Num ver chover com som lá fora
E não as lágrimas mortas de custar a engolir.
Baste, sim baste! Sou eu mesmo, o trocado,
O emissário sem carta nem credenciais,
O palhaço sem riso, o bobo com o grande fato de outro,
A quem tinem as campainhas da cabeça
Como chocalhos pequenos de uma servidão em cima.
Sou eu mesmo, a charada sincopada
Que ninguém da roda decifra nos serões de província.
Sou eu mesmo, que remédio! ...
de: "Álvaro de Campos"

Quem falou em ausente?
Àquele que se fizer ausente lhe recaia
a maldição dos alhures,
a mancha dos distantes,
e sob um silêncio,
todo silêncio é frágil.
de "Soares Feitosa"


Hoje de manhã vinha a ouvir fado enquanto ia a caminho do emprego e dei por mim a interiorizar aquela melancolia que só este fado possui. Como é bela a nossa musica e como é nossa.

Le fado, chant de Lisbonne, fait aujourd’hui partie du paysage musical international. Témoignage d’une culture spécifiquement urbaine, s’il trouve aujourd’hui les conditions pour s’apprécier à grande échelle, grâce à des disques ou des concerts qui permettent à une poignée d’artistes de scène de vivre de leur art, ce chant est aussi, et avant tout, une pratique locale, un chant qu’on interprète de manière spontanée, entre amateurs. Comme toute expression d’origine populaire, les contours du fado semblent flous : on le dit gai et triste, misérable et aristocratique, révolté et conservateur. Il est parfois cérémonieux, parfois provocateur ; il laisse pensif ou invite à la danse. Au hasard des rues de Lisbonne, il s’échappe par éclats d’une taverne d’habitués, il résonne toute la nuit dans une association de quartier ; il s’affiche aussi sur la devanture d’un restaurant cherchant à attirer le touriste. Ses lieux semblent toujours comme retranchés du réel : on chante dans la pénombre, toutes portes closes. On écoute absorbé, accoudé à une table, parfois un peu voûté, laissant à l’imaginaire le soin de compléter les ombres, au rythme de son for intérieur. Les guitares appellent le silence, sorte d’intervalle entre le temps du dehors et ce rêve absent que réinventent les voix. Fadistas et guitarristas, souvent de noir vêtus, s’apprêtent ; les femmes revêtent parfois leur châle sombre.
Dans cet univers où les frontières de la scène s’effacent, on invite l’étranger à s’associer au rituel,
en lui rappelant : " N’est pas fadista seulement celui qui chante, mais aussi celui qui sait écouter".
Mais les gens de fado – ceux qui côtoient le fado au quotidien – défendent l’unité inaltérable de leur chant, soudé par une appréhension particulière des choses de la vie : une " Étrange manière de vivre ", qui se perpétue depuis l’apparition du fado, dans le second quart du XIXe siècle.
pour "Agnès Pellerin"
Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir.
A dita é um jugo e o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo,
quero erguer alto acima de onde os homens,
têm prazer ou dores.
de " Ricardo Reis"
Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.
O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.
Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.
Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.
Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.
É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.
de "Alberto Caeiro"
Agarrando uma enorme vontado de viver, eu levanto a minha mão; e chegando mais longe, sempre mais longe vou estabelecendo as minhas metas.
Cada vez mais me mentalizo que esta nossa passagem por cá é demasiado curta para perdermos tempo com coisas futeis e despreziveis. Assim tento dedicar tempo às coisas e pessoas de quem gosto.
Minha opinião é que vamos ser mais felizes. Ainda que às vezes não apeteça vamos sorrir, vamos cativar um sorriso. e aprender a atirar para trás as coisas que nos magoam e nos deixam tristes.

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores
Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome dos meninos que têm fome
Pela janela do quarto
Pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(Quem é ela? Quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle
Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde
Transito entre dois lados, de um lado
Eu gosto de opostos
Expondo meu modo, me mostro
Eu canto para quem?
Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado
Esquadros (1992)
Adriana Calcanhotto
Pensei que existia um dia em que todas as dúvidas despareciam, assim e correndo o risco de nada poder fazer perante aquelas ironias do destino, baixei os braços esperando que alguém mos levantasse.
A impotência de um gesto surge na dificuldade da comunicação e do medo ou mesmo terror da negação. Como é dificil ...
Aqueles que me rodeiam nada reparam, e como é dificil o respirar, ...
A diferença entre o Heroi e o Cobarde... é que o heroi foge para a frente
Quantos são os devaneios perdidos por uma larga e imensa dor.
Quantos são achados por ti, em busca daquilo que realmente te interessa e pelo empenho que depositas no teu eu.
De todas as verdades eu apenas sei qual é a minha; aquela que me orienta que me elucida, aquela que é a minha bandeira.
Para os que já se esqueceram o que foi a história.

A nova bandeira do iraque já dá que falar. Desenhada por designers ocidentais de boa vontade, a sua simbologia renega não só milhares de anos de história bem como as principais facções religiosas da região; Sunitas e Xiitas. O vermelho e preto, que representavam estas duas "tribos" respectivamente foram substituidas pelo amarelo e azul bebé, duas cores que que em concreto não representam nada, mas ficam bem com qualquer indumentária. "Gosto muito destes dois tons, são muito giros, ficam bem com tudo, quer no verão numa t-shirt, no inverno num cachecol...é muito agradável." Falou á nossa redacção o director artistico do departamento gráfico que criou a bandeira, uma empresa norte-americana também responsavel pelo arranjo gráfico da marca Pepsi.
É claro que o povo iraquiano já demonstrou o seu afecto e carinho pelas cores do seu novo simbolo nacional, regando algumas dessas bandeiras com gasolina e pegando-lhe fogo.
"É o equivalente aos santos populares em Portugal, fazem fogueiras nas ruas...é uma alegria vê-los tão contentes. Estamos a pensar em redesenhar o uniforme do exército Iraquiano também. Ora, as fardas deles são castanhas...eles tão sempre no deserto...o deserto é castanho...assim não se vêem!! De que adianta estar a desenhar fardas se depois não vejo as pessoas com elas vestidas."
Alvaro Cunhal já demontrou a sua vontade de trocar a actual bandeira nacional por um desenho estilizado da cara de Che-Guevara e mudar o refrão do hino de "Às Armas, Às Armas" para "Hasta la vitória siempre".
Disseram-me uma coisa, que de facto nos leva a pensar
« o dinheiro compra tudo, excepto a honra»
"You are not alive unless you know you are living."

Written on the wall of one of Modigliani's studios
"I have the gift of neither the spoken nor the written word, especially if I have to say something about myself or my work. Whoever wants to know something about me -as an artist, the only notable thing- ought to look carefully at my pictures and try and see in them what I am and what I want to do."
Gustav Klimt